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Donald Trump e Kim Jong-Un deram alguns passos, juntos, no território da Coreia do Norte, neste domingo (30/6). — Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Diálogo com Kim mostra Trump de olho nas urnas

Donald Trump volta da cúpula do G-20 no Japão com duas novidades na bagagem, ambas de olho na campanha eleitoral de 2020: a retomada de negociações na guerra comercial com a China e dos diálogos para tentar eliminar o programa nuclear da Coreia do Norte. Em ambos os casos, fugiu ao roteiro tradicional. Em vez de falar grosso, fez concessões, explícitas no caso chinês, implícitas no coreano.

Ao líder chinês Xi Jinping, Trump aceitou segurar a imposição de novas tarifas, sobre importações chinesas estimadas em US$ 300 bilhões, única parcela ainda livre de barreiras na guerra comercial. Mais que isso, aceitou que a empresa chinesa Huawei pudesse voltar a comprar insumos tecnológicos americanos e insinuou que as exigências relativas ao respeito à propriedade intelectual podem ser secundárias caso as conversas evoluam.

Em troca, os chineses se comprometeram, de modo vago, com aumentar a importação de produtos primários americanos em até US$ 70 bilhões, um valor aquém tanto da meta inicial americana (US$ 120 bilhões) quanto da ampliada este ano (US$ 200 bilhões). Também aceitaram, por ora, a manutenção das tarifas já impostas, sobre exportações de US$ 200 bilhões, sem novas retaliações.

Para os Estados Unidos, a guerra comercial não surtiu o efeito esperado. Não apenas por trazer riscos ao crescimento econômico, mas também por não ter resultado em queda no déficit comercial. Caiu a importação da China, mas não o déficit como um todo, pois os produtos passaram a ser comprados de outros países.

“A evidência até agora é consistente com a visão de que a guerra comercial com a China não deverá reduzir o déficit comercial nem trazer de volta empregos industriais”, diz David Dollar, da Brookings Institution. “Mudar o comportamento da China exige cooperação com parceiros como União Europeia (UE) e Japão, mas nenhum deles concorda com essa tática.”

Do lado chinês, enquanto diminuiu o comércio com os Estados Unidos, as importações também passaram a vir de outros países. A China já aumentou as tarifas médias aplicadas a produtos americanos de 8%, em janeiro de 2018, para 20,7%, no início do mês. Para os demais países, elas foram reduzidas para 6,7%, segundo o Instituto Peterson de Economia Internacional (PIEE).

Apesar do enfrentamento na guerra comercial, Trump e Xi têm um interesse comum: conter o programa nuclear norte-coreano. É nesse contexto que deve ser entendida a visita-relâmpago de Trump ontem à Coreia do Norte, depois que o ditador Kim Jong-un, aparentemente, respondeu positivamente a um tuíte em que Trump se oferecia para ir à zona desmilitarizada entre as duas Coreias.

A retomada do diálogo entre Trump e Kim, interrompido depois do fracasso da cúpula de Hanói em fevereiro, não elimina as divergências profundas entre as expectativas dos dois lados. A palavra “desnuclearização” tem significados diferentes para cada um.

A concessão implícita feita por Trump na conversa com Kim poderá aproximá-los. Em vez de exigir o desmantelamento completo de todas as instalações nucleares e artefatos atômicos norte-coreanos, Trump parece ter aceitado, de acordo com as informações publicadas na imprensa americana, apenas um congelamento do programa nuclear, com o fechamento de sua principal instalação, em Yongbyon.

Desde que subiu ao poder, Kim manteve sua determinação em transformar seu país numa potência nuclear reconhecida. Realizou quatro dos seis testes nucleares norte-coreanos e cerca de 90 lançamentos de mísseis (os últimos, de curta distância, em maio, depois do fracasso da cúpula de Hanói).

Seu principal revés foi a adesão da China, outrora aliada, às sanções impostas pela ONU. A economia norte-coreana aprofundou seu colapso, mas ele não desistiu dos testes até proclamar o domínio – não confirmado por analistas ocidentais – da bomba de hidrogênio.

Xi fez também neste mês a primeira visita de um líder chinês à Coreia do Norte desde 2005. Encontrou Kim pela quinta vez em um ano, mas não ofereceu alívio às sanções. Ao resistir ao apelo de Kim, fez um gesto que permitiu a Trump retomar o protagonismo no diálogo com a Coreia do Norte e contribuiu para romper o impasse na guerra comercial.

Com dois anos e meio de mandato, popularidade estagnada e temor de derrota para os democratas em 2020, Trump viu duas oportunidades simultâneas de marcar pontos eleitorais em casa:

  1. Mais uma foto histórica ao lado de Kim, posando como artífice da paz na região que, no início de seu mandato, era vista como a mais arriscada do planeta. Para isso, aceitou a abordagem gradual nas negociações, que vinha sido defendida por Japão e Coreia do Sul.
  2. Aliviar a guerra comercial que tem desaquecido a economia americana e gerado incerteza entre os agentes econômicos. Para isso, aceitou que não dobrará sozinho o poderio chinês.

Em ambos os casos, demonstrou uma faceta nova para quem ficou conhecido pelo destempero: a capacidade de fazer concessões.

*Helio Gurovitz – G1

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