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Entre tereré e o chimarrão, MS é terra de forasteiros

Dos 35 anos de vida de Francielle Franco, 22 deles já são em terras sul-mato-grossenses. A empresária chegou a Campo Grande com a família em 1996, aos 13 anos. Vinda de Santo Ângelo (RS), foi a transferência de trabalho do pai que fez com que ela aprendesse que a cuia também serve para água gelada.

A primeira observação quanto à identidade do sul-mato-grossense veio pela diversidade do sotaque, característico da Região Sul do País. Francielle não puxava o “r”, mas tinha o “te” acentuado. “Gente, dente. Porque, como eu era do interior, a gente não fala ‘ti’ ‘di’”, exemplifica.

Aqui, a família preservou os costumes: almoçavam no centro de tradições gaúchas e se vestiam conforme a cultura. Apesar da distância, Francielle ainda era prenda e já reparava que, ao contrário do que via no Rio Grande do Sul, não tinha o que identificasse um sul-mato-grossense. “O que me chamava atenção era por não ter nada específico daqui. Há um pouco do paraguaio, do próprio gaúcho, mas eu sentia que faltava. Lá a gente sabia cantar o hino do estado, aqui nem sempre”, comparava.

Na casa dos pais, ao acordar, a primeira coisa a servir era o chimarrão. A bebida quente era levada até em passeios no domingo de manhã, no Parque dos Poderes. Aos poucos, por influência dos colegas, o chimarrão foi dando lugar ao tereré, de forma muito natural. “Desde que me mudei para cá, aprendi a gostar. Meu pai nunca quis, minha mãe também é supertradicionalista”, compartilha. E, hoje, entre um e outro, ela tende mais para a erva gelada. “Mas tem a tradição, então, eu fico com um em cada mão”, brinca.

Em tom de brincadeira o pai, Eliseu Franco, disse ter ficado magoado, depois que a filha colocou Mato Grosso do Sul nos documentos. “Perdi meu RG, que era de lá, e fiz aqui. Ficou SSP/MS e ele ficou magoado”, recorda.

Assim como Francielle se rendeu ao tereré, a identidade do sul-mato-grossense também é moldada pelas tradições que ela trouxe consigo.

“Eu tenho muito orgulho de ter nascido gaúcha, mas fui mais sul-mato-grossense até pelo tempo de vida aqui. Eu vim muito menina e a gente acaba se desenvolvendo, tem um sentimento diferente, mas com o coração e o sangue gaúcho”, se declara.

A própria vivência lhe ensinou a perceber a identidade sul-mato-grossense. “Eu consigo um pouco mais hoje, mas ainda acho que é uma mistura de Brasil. Tem a parte da cultura que vem do gaúcho, a própria música, a influência paraguaia, não é uma identidade única”, afirma.

A empresária já puxa o “r” com facilidade, mas ainda ouve dos amigos que quando a braveza chega, o sotaque gaúcho impera. “Hoje eu falo ‘porrrta’. Acho que estou ajudando a formar essa identidade. Estou criando uma filha sul-mato-grossense”, encerra. Casada com Daniel, nascido em Mato Grosso do Sul, Francielle é mãe de Júlia, 10 meses, também nascida aqui.

SP NA ORIGEM, MS POR ESCOLHA – É por acaso que uma impropriedade no registro de Sueli Levandoski Furtado Paroni indica como cidade natal a que ela carrega no coração: Campo Grande. Nascida em São Paulo e registrada lá, a professora de Artes cresceu ouvindo as histórias, canções e os causos de Mato Grosso do Sul. O maior propagador delas era o próprio pai, seu Isaías, e hoje é ela quem ensina aos alunos a construção da própria identidade.

Formada na primeira turma de Artes Visuais da UFMS e também designer, Sueli decidiu trabalhar com o lema de que a arte tem o poder de transformação e construção de uma sociedade. Num estado novo, com 41 anos de nome, Mato Grosso do Sul era o cenário perfeito para pôr em prática o que a teoria lhe traz. “Foi dentro desta pesquisa que comecei a perceber esse abismo, essa distância, as pessoas estão longe da cultura e têm uma certa dificuldade em compreender suas origens e formação”, avalia.

Para quem estuda e vive a realidade das escolas, lidando com crianças e jovens, a nossa identidade ainda está em formação, sendo tecida ponto a ponto. “Somos um polo diverso, uma miscigenação cultural incrível, em razão da fronteira, das migrações, da questão indígena”, elenca.

O reflexo disso é não ter como dizer que tal costume seja genuinamente sul-mato-grossense. “Esse desenho, esse rascunho do que somos, começou a ser escrito a partir de 1977 e, por ser tão recente, é complicado até em questão de material de pesquisa”, revela.

Em sala de aula, a professora trabalha, dependendo da faixa etária, com música, literatura e história regional. “Somos um Estado tão rico, que todas essas influências que encontramos aqui são referência para a nossa formação cultural. É difícil você conversar com alunos, sobre cultura, se não se reconhecem. Por que vocês tomam tereré? De onde veio?”, questiona.

Entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, a professora não tem dúvidas em dizer com qual cultura se identifica mais. “A sul-mato-grossense me arrebatou. Quando eu vim para cá pela primeira vez, cheguei de ônibus e não vou lembrar o nome das ruas, mas eram 6h da manhã, o sol estava nascendo, as pessoas já indo para o trabalho. E aquele cheiro da cidade, aquele som das árvores sete-copas, eu gostei e gosto”, explica.

Ser sul-mato-grossense para ela é questão de se identificar com a diversidade e também se encantar com isso. “Temos um caldeirão cultural, uma riqueza tão própria do nosso estado, característico da gente”. Se há em Campo Grande um local que mais resume a identidade, a professora escolhe o Mercadão. “Onde você sente o cheiro da erva e da guavira, vê a linguagem dos índios e os artigos de peão de fazenda, cruza com os descendentes de japoneses e tudo junto e misturado”.

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