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As lições da primeira crise das fintechs no Brasil

As fintechs, como são chamadas as startups do setor financeiro, estão revolucionando um dos segmentos mais tradicionais da economia. Oferecem praticidade ao consumidor, com custos mais baixos e maior agilidade para as operações bancárias. Em geral, tudo é resolvido por meio do aplicativo no celular. Um dos maiores desafios das fintechs, no entanto, é mostrar que podem ser tão confiáveis como bancos tradicionais, para quem a reputação é um de seus mais valiosos ativos. É por essa razão que se pode dizer que as fintechs que atuam no Brasil acabam de passar por uma espécie de teste de batismo.

A decisão do Banco Central, responsável pela regulação e fiscalização das instituições financeiras, de decretar no último dia 4 a liquidação extrajudicial do Banco Neon, nome do antigo Banco Pottencial, de Minas Gerais, pegou clientes da instituição e o mercado de surpresa. O Banco Neon servia também como nome comercial da Neon Pagamentos, uma das mais conhecidas e bem-sucedidas fintechs do país, com mais de 600.000 clientes conquistados em menos de dois anos.

Apesar de compartilharem do mesmo nome, são instituições distintas: o banco mineiro que já existia há vários anos e a fintech novata com sede em São Paulo. A decisão do BC afetou o antigo Pottencial, com quem a Neon Pagamentos havia acertado uma parceria em 2016 para conseguir operar, uma vez que não possui a licença necessária para atuar como banco e fazer os serviços de custódia e liquidação. Na ocasião, ficou acertado que o Pottencial mudaria de nome para Neon, ainda que continuasse a funcionar nas suas áreas de especialização, o empréstimo para pequenas e médias empresas e a concessão de fianças bancárias, sem vinculação de recursos com a fintech. Mas a coincidência de nomes gerou uma confusão no mercado.

Os impactos, até o momento, são limitados. Quem tem conta digital ou cartão pré-pago emitido pela fintech Neon não consegue fazer serviços como transferências e pagamento de contas. A consulta de saldo e o uso do cartão de débito continuam em funcionamento. Segundo a Neon, o número de pedido de fechamento de contas por clientes até agora é baixo, enquanto o próprio BC buscou esclarecer, desde o início, que as razões que justificaram o pedido de fechamento do banco não tinham relação com a fintech.

Ficam, no entanto, as lições do episódio. A primeira delas é diagnosticada pelo próprio fundador e CEO (presidente-executivo) da Neon Pagamentos, Pedro Conrade: “O principal aprendizado é que não devemos nos associar a outra instituição e deixá-la usar o nosso nome. Isso foi um erro e eu não faria novamente. Acabou gerando uma confusão desnecessária”, disse.

A segunda lição é que nem sempre regras feitas para dar segurança às instituições tradicionais se mostram as mais eficazes para as fintechs. “É claro que é necessário haver alguma supervisão sobre a atuação das fintechs, mas esse caso mostra que a solução não é a associação com instituições mais antigas, que nem sempre são saudáveis”, diz Pedro Englert, CEO e um dos fundadores da StartSe, uma plataforma que reúne startups.

Segundo fontes do mercado, o Neon (ex-Pottencial) não tinha patrimônio suficiente para honrar as suas dívidas. Além disso, o BC detectou violações – como falhas na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro – durante seu trabalho rotineiro de fiscalização das instituições financeiras no país. A situação era tão grave que o BC decidiu decretar a liquidação do banco. Mas não havia nada de errado com a Neon Pagamentos.

Outro ensinamento é que a agilidade para buscar e apresentar uma solução conta a favor no momento de preservar ou até reforçar a credibilidade. Poucas horas depois do comunicado do BC, a direção da Neon Pagamentos começou a negociar com outras instituições financeiras que pudessem substituir o Pottencial nos serviços de custódia e liquidação; e, 72 horas depois, anunciou a parceria com o Banco Votorantim, o sexto maior do país em ativos. Os clientes esperam agora a normalização da situação das contas digitais na Neon.

Especialistas dizem que a participação das fintechs para o sistema bancário já estabelecido é importante para gerar concorrência em um setor dominado por poucos “players”. Quem sai ganhando é o consumidor. Mas será essencial que as fintechs aprendam com os próximos desafios pelo caminho.

*Veja

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