Os brasileiros Muriqui e Elkeson atuando pelo Guangzhou Evergrande durante a Liga dos Campeões da Ásia em 2013 (Alex Livesey/FIFA/Getty Images)

‘Reis’ brasileiros na Ásia garantem que jogar na China vale a pena

A fuga em massa de jogadores e treinadores com passagens pela seleção brasileira rumo ao emergente futebol chinês levantou discussões acaloradas neste início de 2016. O termo “proposta irrecusável” foi repetido por quase todos aqueles que decidiram se aventurar em solo asiático e priorizar a estabilidade financeira em relação a uma carreira mais gloriosa. A moeda fraca, a desorganização do futebol nacional e o baixíssimo prestígio da CBF e da seleção brasileira parecem ter facilitado ainda mais a escolha, até mesmo para atletas que seguiam nos planos de Dunga. Mas, afinal, largar tudo no Brasil para ganhar uma fortuna e jogar na China é uma escolha realmente irrecusável? Os atacantes Elkeson e Muriqui, ídolos do Guanghzou Evergrande e brasileiros mais bem-sucedidos da história futebol chinês, revelam as vantagens e os percalços de atuar no país de 1,3 bilhão de habitantes.

​O atacante carioca Muriqui, de 29 anos, foi o primeiro a chegar, em 2010, depois de rodar por diversos clubes do país, como Vasco e Atlético-MG. Na época, o Guanghzou estava rebaixado à segunda divisão devido a um escândalo de manipulação de resultados, mas foi comprado pela Evergrande Real Estate Group, segunda maior empresa imobiliária do país, que rebatizou o time. A injeção financeira fez com que o Guangzhou Evergrande rapidamente se tornasse o clube mais poderoso do continente asiático: venceu a segunda divisão em 2010 e a primeira divisão em todos os anos seguintes, além de ter conquistado duas vezes a Liga dos Campeões da Ásia e, por isso, disputado o Mundial de Clubes da Fifa em 2013 e 2015. Muriqui deixou o clube chinês em 2014 como ídolo absoluto e foi em busca de mais conforto familiar no Al-Sadd, do Catar, onde agora recebe assistências do veterano espanhol Xavi Hernández, ex-Barcelona, e desfruta do luxo das praias locais com a esposa e o filho. Outro herói do Guangzhou, Elkeson segue no time, ao lado de compatriotas como Ricardo Goulart, Paulinho e até o técnico Luiz Felipe Scolari. Autor dos gols mais importantes da história do clube, o jogador maranhense de 26 anos se diz plenamente adaptado à cultura local e garante que nem ele nem os outros compatriotas pensam em deixar a China.

“Os brasileiros não querem sair de jeito nenhum. Conversei muito com o Paulinho antes de ele vir, ele estava preocupado com alimentação, moradia. Eu disse a ele que aqui não é igual Inglaterra, mas poderia vir de olhos fechados. Tem mercado internacional, duas churrascarias brasileiras. Nós moramos todos juntos, no melhor condomínio da cidade, é bastante tranquilo”, conta Elkeson, que trocou o Botafogo pelo Guangzhou em 2012. Tanto ele quanto Muriqui, no entanto, ressaltam que nem todas as cidades chinesas oferecem estrutura e qualidade de vida ideais e que é sim, possível, dizer “não” aos chineses. “Tem cidades muito boas e outras mais antigas e difíceis de viver, com poucos estrangeiros. Os jogadores que não conseguem se adaptar são os que vão para estas cidades, porque têm poucas opções para a família. Antes de escolher, vale pesquisar bem a respeito do lugar onde vai ficar. O jogador pensa no dinheiro, mas depois pode acabar passando sufoco e, se a família não está bem, o jogador acaba não rendendo”, alerta Muriqui. “Se a vida fora do clube for ruim, eu não aconselho. É preciso dar estrutura para a família”, completa Elkeson.

Os primeiros reis brasileiros da China também citam as longas viagens entre as cidades, o frio e o choque cultural como as principais dificuldades. Apesar de ter tido restaurantes ocidentais à disposição, Muriqui não abria mão da culinária brasileira em casa. “Sempre que eu voltava do Brasil eu levava muito feijão, pra durar o ano todo”, diverte-se. As restrições do governo chinês em relação aos meios de comunicação – de potencial “subversivo”, alegam os políticos – também causam desconforto, mas os atletas arrumaram uma forma de “driblar” a rigidez da república socialista. “Quando eu estava lá estava censurado YouTube e Facebook e aí nos tínhamos que desbloqueá-los com um programa de VPN. Também não tem canal brasileiro de TV, a gente só conseguia acompanhar as coisas pela internet mesmo”, contou Muriqui.

Agora desfrutando do luxo do Catar, Muriqui admite que os anos fora do Brasil garantiram o futuro de seus familiares, mas ressalta que é preciso saber tomar conta das finanças. “Eu tenho uma equipe que me ajuda a investir meu dinheiro e diversificar meus negócios. Tenho imóveis e algumas aplicações que me dão um bom rendimento mensal. Também estamos abrindo uma empresa pela internet que é uma aposta. Procuro estudar, ler bastante, para não ficar alienado.” Muriqui garante que viver na Ásia pode ser muito bom, mas não crava qual é a melhor opção entre China e Catar. “Depende. Os dois dão uma condição financeira boa. Se for para jogar um campeonato mais disputado, eu diria que é melhor ir para a China. Mas se você quer desfrutar da vida, com a família, o Catar é melhor. É um país pequeno, tem boas praias e bons restaurantes”.

 

(Fonte: Veja.com)

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