Investigação em Montes Claros aponta que Máfia das Próteses desviou R$ 5 milhões do SUS

Médicos investigados não compareceram a oitiva e serão ouvidos em Brasília

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Máfia das Próteses realizou, nesta quinta-feira (19), uma audiência em Montes Claros (MG), onde a operação Desiderato da Polícia Federal prendeu, no dia 2 de junho, oito pessoas suspeitas de envolvimento com o esquema. A ida da comitiva a cidade visava esclarecer as denúncias de que materiais pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) eram usados na rede privada por meio de laudos falsos. Estima-se que R$ 5 milhões foram desviados no município.

Vágner Vinícius Ferreira, Zandonai e Gerson Miranda, médicos denunciados, não compareceram à audiência. No entanto, o presidente da CPI, deputado Geraldo Resende (PMDB/MS), aprovou a convocação deles para depoimento em Brasília no dia 25 de junho.

O procurador da República, André Vasconcelos Dias, deu detalhes da operação Desiderato. Os três médicos investigados na operação teriam causado um prejuízo de R$ 5 milhões aos cofres públicos. Em um primeiro momento, a propina era paga em dinheiro vivo, mas depois os médicos criavam pessoas jurídicas para justificar o pagamento bancário como se tratassem de consultorias. “Há um grande esquema que não está restrito à nossa região, de caráter nacional, de cooptação de médicos mediante pagamento de vantagens indevidas para a utilização de determinada marca e, além disto, para o uso excessivo de certa quantidade de produtos desta marca”, disse.

O delegado da Polícia Federal, Marcelo Eduardo Freitas, que comandou a operação, contou que os médicos informavam uma quantidade superior de material usado nas cirurgias e, assim, criavam um estoque paralelo pago pelo SUS e repassado para a rede particular. O esquema teria causado até a morte de pacientes. “Ocorreram óbitos de pessoas que simplesmente acreditaram ter feito o procedimento, mas na realidade não tiveram a oportunidade de saber se o procedimento foi realizado”, reatou.

O prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz (PRB),  acredita que ao menos 20% dos pagamentos feitos pelo SUS aos hospitais para procedimentos de alta complexidade são fraudulentos.  Muniz fez ainda graves acusações contra a Santa Casa, que cobraria de pacientes por materiais fornecidos pela rede pública. Para ele, os hospitais são coniventes. “Não tem jeito de o gestor (do hospital) não ficar sabendo que tem coisa errada”, disse.

Santa Casa nega acusações, mas paciente confirma

            O superintendente da Santa Casa, Maurício Sérgio Souza, disse que as acusações do prefeito eram falsas. Ele afirmou ter aberto sindicância contra o médico Zandonai Miranda, preso na operação da PF, para apurar a cobrança de R$ 40 mil de um paciente. Zandonai chegou a ser afastado por 180 dias, mas seus colegas de trabalho pediram que ele retornasse, pois estaria passando por dificuldades financeiras.

Maurício negou todas as acusações. No entanto, a paciente Maria Elci confirmou a cobrança dupla em cima dos materiais. Zandonai teria cobrado R$ 40 mil pela instalação de três stents farmacológicos em seu marido. “Eu paguei R$ 30 mil em espécie para a secretária dos médicos e fiquei devendo R$ 10 mil. Eles me ligavam sempre, mas pararam no fim de 2014,” revelou.

As suspeitas também recaem sobre o Hospital Dilson Godinho. A funcionária Valquíria Souza Lima confirmou a existência de um “depósito paralelo”. Ela explicou que os médicos emitiam um relatório correto para a família do paciente e um adulterado para o SUS. “Os médicos alegavam que o SUS pagava apenas uma prótese por cirurgia, mas há casos em que é necessário mais para cobrir a lesão. Os stents ficavam separados e nós identificávamos como nosso,” contou.

O diretor do hospital, Dilson Quadros Godinho, se esquivou de grande parte das perguntas e negou ser parte do esquema. No entanto, reconheceu que não tomou providências diante das denúncias contra os médicos.

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